
Aprendi a gostar de futebol muito cedo. Apesar de meu pai nunca ter sido o cara mais entusiasmado do mundo com isso, sempre admirou o São Paulo. Além dele, sempre tive uma grande referência futebolística, meu avô. É disso que falarei próximas linhas.
Desde que me dou por gente, ouço as histórias dele de quando era zagueiro. Jogava no Mem de Sá B, um dos melhores clubes da várzea, segundo ele. Era zagueiro, mas não era brucutu não senhor. Batia faltas colocadas e não na pancada como geralmente cobram os zagueiros. Era técnico, alto e mantinha a forma física para jamais perder uma bola na corrida.
Além das peladas aos sábados, também amava o futebol jogado por Palmeiras, time do coração, e Fluminense, sua vertente carioca. Sabia escalar a linha do clube das Laranjeiras da década de 30 como se o último jogo tivesse sido na semana passada. Mesmo torcendo por eles, não deixava de admirar a beleza do futebol de outros clubes.
Acompanhava o Santos de Pelé, indo por vezes ao Maracanã acompanhar o melhor jogador do mundo. Também gostava da linha do São Paulo formada por Bauer, Sastre e Leônidas. Estamos falando de um time que jogava em 1945.

Em pé: Piolim, Rui, Zezé Procópio, King, Florindo, Noronha. Abaixados: Barrios, Sastre, Leônidas, Remo e Leopoldo.
Meu avô era daqueles jovens que iam semanalmente ver jogos em estádio. Na maioria das vezes, acompanhado por seu pai. Estava na inauguração do Morumbi, desfilou na abertura do Pacaembu e viu Pelé fazer o gol mais bonito de sua vida (não capturado pelas câmeras de TV) na rua Javari. Segundo ele, Pelé jogava mal a partida e fora vaiado. Calmo como só ele, depois do gol, olhou para a platéia em uma saudação com se dissesse: “Tenham calma, eu sei que sou o melhor do mundo”.
Dentre os ensinamentos do futebol e da vida, dois são muito marcantes. O primeiro, em que sempre me dizia: “Em uma discussão, há sempre alguém certo e alguém errado. É preciso ter humildade para se admitir que errou e arrumar as coisas”.
Sempre foi uma pessoa calma. A maior parte do que sei e amo do futebol é graças ao que vi com ele. Foram quase 23 anos de aprendizado e muita conversa. Não há nesse mundo o que apague o dia em que fomos juntos ao Museu do Futebol. Para mim, história. Para ele, lembranças.
Vou para sempre lembrar o que me disse em todos os jogos que assistimos juntos: “É preciso chutar em gol”. Isso, certamente, é muito mais do que futebol.
Valeu vô!
Boa viagem!
@fcury
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Escrito por Fernando Cury