Muitas pessoas passam pelas nossas vidas e muitas delas são simplesmente esquecidas com o passar do tempo. Isso é fruto, dentre outras coisas, da natureza do relacionamento que construímos com elas. No mundo de hoje, as relações são cada vez mais fugazes. E isso também se reflete no esporte. Poucos serão lembrados como ídolos. Poucos criam laços firmes com seus torcedores.
O fato que me suscitou esse pensamento foi a assustadora ascensão do garoto Keirrison, atacante do Palmeiras. Quantos gols! Quanta técnica! Quanto talento! Quanto tempo mais vocês acham que ele vai vestir a camisa alviverde?
Mais do que a tristeza de perder um craque para o futebol da Espanha, da Ucrânia, de Marte ou seja lá de onde for, o que me decepciona é o fato de que esse quase-herói vai ser em breve esquecido pela torcida. Vai ser só mais um cara que prometia muito! Mas não teve tempo de cumprir essa “promessa”. Não há laços firmes. Não é culpa da torcida, não é culpa do garoto é culpa do mundo que, ó, é cruel. Ou talvez da crise. É tudo culpa da crise!
Trago então, como um suspiro de esperança ou um quê de nostalgia – interpretem como quiser – os exemplos de duas torcidas que me surpreendem pelos laços que criaram com dois personagens do esporte brasileiro.
Um desses personagens foi um rapaz esforçado, de sobrenome Silva, que em outubro de 1991 conseguiu subir ao topo do automobilismo mundial pela terceira vez. O corintiano Ayrton Senna nos deixou há mais de uma década, mas ainda é intensamente homenageado. Boa parcela dessas homenagens parte de seus companheiros de torcida. A Gaviões da Fiel adotou o ídolo como símbolo de raça e dedicação. Senna sempre é lembrado pela nação corintiana, seja em forma de sua imagem nas bandeiras hasteadas nos estádios de futebol, seja no carnaval, na avenida, em forma de enredo da escola de samba, como foi esse ano.
O outro personagem é um senhor que durante muito tempo teve a fama de “pé frio”. 14 de Julho de 2005. A Copa Libertadores da América vai chegando ao seu fim. O São Paulo vence a partida contra o Atlético Paranaense por 3 a 0 e está conquistando seu terceiro título da competição. A torcida grita o nome do time. A torcida grita o nome de todos os jogadores. A torcida grita “É campeão”. A torcida grita o nome de… Telê Santana. O ex-treinador também havia nos deixado, não estava no banco de reservas naquele dia. Mas aonde quer que estivesse, os sãopaulinos queriam lembrá-lo de que ele era lembrado. De que um laço foi criado.
Um laço foi criado e mantido. Não apenas um laço, talvez um nó, desses de marinheiro, que não é fácil desatar. E dou meus parabéns a essas duas torcidas, a esses marinheiros que tratam de lembrar e relembrar incessantemente das pessoas a quem julgam especiais, a quem julgam dignos de não serem esquecidos.
João Dutra

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Escrito por Fernando Cury